20 de maio de 2011

Carta aberta sobre a homofobia

Essa discussão toda sobre o kit anti-homofobia que o MEC estuda distribuir em escolas, também apelidado de 'kit gay' pelos homofóbicos ainda está rendendo. Não bastam Bolsonaros e líderes de movimentos LGBT discutirem. O assunto toma uma esfera cada vez mais ampla. Isso é bom. Só assim a sociedade começa a discutir de fato o assunto e essa discussão (a saudável, eu digo) consegue gerar um desenvolvimento social muito grande.

Nesse cenário, recebi um e-mail um tanto quanto curioso de um endereço desconhecido. Não sei como chegaram ao meu endereço eletrônico, nem se é de fato um e-mail real.

Leia com atenção e vejam o que estão fazendo com nossas crianças;

Trechos do livro "Mamãe, Como Eu Nasci?", aprovado pelo MEC para alunos na faixa dos 10 anos;

"Olha, ele fica duro! O pênis do papai fica duro também?

Algumas vezes, e o papai acha muito gostoso. Os homens gostam quando o seu pênis fica duro."

"Se você abrir um pouquinho as pernas e olhar por um espelhinho, vai ver bem melhor. Aqui em cima está o seu clitóris, que faz as mulheres sentirem muito prazer ao ser tocado, porque é gostoso."

"Alguns meninos gostam de brincar com o seu pênis, e algumas meninas com a sua vulva, porque é gostoso. As pessoas grandes dizem que isso vicia ou "tira a mão daí que é feio". Só sabem abrir a boca para proibir. Mas a verdade é que essa brincadeira não causa nenhum problema".


O MEC distribuirá kit anti-homofobia em escolas públicas no segundo semestre;

Pelos cálculos do MEC, uma criança com sete anos de idade que chegar à escola e receber em mãos uma historinha de amor homossexual, terá menor probabilidade de tecer brincadeiras discriminatórias para com o coleguinha. Mas o que é difícil imaginar é o que se passará na cabeça de cada uma dessas criancinhas diante deste kit de orgulho gay do governo, será que a consequência vai ser a esperada pelo governo ou isto é uma propaganda de que é moda e normal namorar pessoas do mesmo sexo (Vejam foto exemplo abaixo).

http://cabecajovem.com/?p=1302

Até quando nós famílias, pessoas trabalhadoras com direitos e obrigações, padrões éticos e culturais, vivendo dentro dos bons costumes, ocupados com nossas vidas e dos nossos parentes próximos, sem tempo para reivindicar nossos direitos, deixaremos minorias radicais ditar novas regras padrões? Deixaremos também esta minoria ensinar nossos filhos? Vamos deixar que façam o que quiserem com nossas vidas e nosso país?

Este é um dos exemplos, de como coisas deste tipo são defendidas e aprovadas em função de pequenos grupos que tem voz ativa, pois na grande maioria por falta do que fazerem, ficam o dia inteiro a margem da sociedade trabalhando para modificar nossas vidas.

Outro exemplo é de um pequeno grupo que se dizem pertencer aos direitos humanos, que defendem o direito de bandidos, contraventores, estupradores (inclusive defendem os que praticam violência contra os homossexuais) enquanto nós cidadãos de bem que sofremos violências de todos os tipos somos privados o tempo todo dos direitos básicos, somos desrespeitados quanto à segurança, moradia, educação, saúde, etc. Quanto a isto não aparece nenhum radical para nos defender, e dar uma verdadeira ocupação para nossos queridos e ocupadíssimos congressistas e membros do nosso governo.

Ainda também poderemos citar os radicais ambientalistas que no Brasil, improvisam leis sem critérios técnicos, e se fossem aplicadas corretamente, hoje não teríamos alimentos em nossa mesa. Pois como disse, estes radicais sem conhecimento técnico aprovarão leis que não podem nem ser aplicadas e criaram um grande conflito e medo no setor agrário. Com facilidade aprovaram a nova cartilha mas não conseguem aprovar o novo código florestal que veio para corrigir os seus próprios erros.

Deixo bem claro que sou contra a homofobia . Gostaria que criassem leis mais rígidas e que punissem os praticarem deste ou qualquer outro tipo de crime, mas deixem nossas crianças fora disto.

Agora, como um pai preocupado eu peço a todos que receberem e lerem este e-mail:

Não vamos deixar estes radicais acabarem com nossas vidas e de nossos filhos.

Repasse este e-mail a toda sua lista e no dia 05/06 (Cinco de junho) vamos desligar durante 30 (trinta) minutos às 14:00hs o relógio de energia de nossas residências em sinal de protesto silencioso contra tudo isto mostrando e que não concordamos, e se preciso for vamos marcar uma data para colocarmos novamente tinta em nossa cara e vamos as ruas.


Sendo real ou não, esse e-mail despertou minha vontade de responder a tudo isso. É pouco, mas assim espero estar contribuindo com uma pequena parte na mudança (inevitável) do mundo para um lugar mais humano. A pressão em cima disso está forte. A questão, pra mim, é só quanto tempo isso vai levar pra acontecer, pois acontecer tenho certeza que vai. De qualquer maneira, me senti compelido a responder, vamos lá:

Boa noite.

Não sei como conseguiu meu e-mail, mas devo informar-lhe que você está enviando esse e-mail para um gay. Sou homossexual e não pretendo influenciar ninguém a ser gay. Assim como não acho que a sociedade deva influenciar as crianças a ser hétero. Porque eu sofri essa influência. E sei o quanto dói até você entender o que acontece com você e que isso é normal. Sim, "pai preocupado" sem nome, isso é normal, ninguém escolhe nascer gay numa sociedade preconceituosa. Então devo discordar do seu e-mail quando diz "será que a consequência vai ser a esperada pelo governo ou isto é uma propaganda de que é moda e normal namorar pessoas do mesmo sexo" e te responder que sim, é normal. Querendo ou não. A ciência já mostra que isso vem de identidade genética. Então assim como ser loiro não é anormal perante ser moreno, ser heterossexual não é anormal perante ser homossexual, e vice-versa.

Esse kit não é um "kit gay", como diz o título do seu e-mail. É um kit que faz parte de um projeto de combate à homofobia. É um kit que ajudará a sociedade no futuro (as crianças de hoje) a entender o quão errado é um ataque a homossexuais com lâmpadas somente pelo fato deles serem homossexuais. O kit tem a intenção de trazer uma maior conscientização à população de que a diversidade é parte da raça humana.

Não faço parte de nenhum movimento gay, nem nunca fui de levantar bandeira, pois assim como você não anda com um adesivo na testa dizendo "Eu sou hétero", acredito que eu não tenha que andar com um "Eu sou gay". Mas diante desses ataques homofóbicos absurdos e declarações mais absurdas e estapafúrdias ainda, como a do deputado Jair Bolsonaro, me sinto atacado, desmerecido como cidadão e perplexo de ver o preconceito tão forte e sólido em entidades que deveriam pregar o amor ao próximo, como religiões (sem nenhuma específica) e grupos de pais preocupados, como o do senhor.

Entendo a preocupação do senhor quanto à educação de seus filhos e admiro isso. Assim como admiro casais gays ou lésbicos que adotam crianças e tem as mesmas preocupações que o senhor tem em relação a seus filhos. Talvez até algumas preocupações a mais, como o preconceito que a criança sofrerá no cruel ambiente escolar por conta dos pais serem gays ou lésbicas. Tenha certeza que essa é uma preocupação desses casais e que eles com certeza gostariam de ter um mundo mais humano para os seus filhos, um mundo onde não interessa o que cada pessoa faz entre 4 paredes, não importa se ela tem desejos por homens ou mulheres. Nesse mundo ideal, o que deveria importar é o caráter da pessoa, seus valores e atitudes. Deveria importar o que a pessoa traz para o mundo. E garanto ao senhor que em qualquer 'grupo social' se encontram pessoas com bom e com mau caráter.

Falando nisso, devo discordar também de sua afirmação "na grande maioria por falta do que fazerem, ficam o dia inteiro a margem da sociedade trabalhando para modificar nossas vidas". Essa é uma visão que me assusta. Como já disse, eu sou gay. Trabalho no mesmo horário comercial que o senhor deve trabalhar. Sou graduado por uma universidade em São Paulo, moro sozinho e tenho curso e vivência no exterior, tudo pago somente com o meu esforço e por mim mesmo. Nunca recorri a ninguém para pagar as coisas pra mim. Tenho uma relação ótima com meus pais, amigos e familiares, que conheceram todos os meus namorados, mas mesmo assim, banquei tudo por conta própria. Tenho a minha vida, tenho "o que fazer", não fico o dia inteiro à margem da sociedade e muito menos fico trabalhando para modificar a sua vida. A não ser que você considere que quem trabalha honestamente contribui para modificar o andamento do país e por consequência de seus cidadãos, o senhor incluso. Então peço que o senhor tenha cuidado ao falar dessa maneira de "minorias", que não são tão minorias assim. Por menos que o senhor acredite, a população homossexual/bissexual é muito maior do que o senhor imagina. Só que muitos nunca se assumem, pois a sociedade está cheia de gente que, de graça, ataca homossexuais, seja com agressões físicas como as que ocorreram em São Paulo, seja com agressões verbais, como as declarações descabidas do deputado Bolsonaro.

Não sei se o senhor já teve a oportunidade de conhecer outros lugares fora do Brasil. Eu morei em Londres, uma das cidades mais visitadas e com maior relevância economicamente e politicamente no mundo. Não morei lá por causa disso, mas esse fato ilustra o que quero dizer. Cidades como essa, que tem um nível de desenvolvimento político e econômico avançado tem uma postura perante a assuntos sociais que fazem que com que a postura do meu amado Brasil seja retrógrada em muitos pontos. Não concordo com a premissa de que "o que é de fora é melhor do que o da gente, no Brasil". Pelo contrário, morando fora sei tudo de bom que esse país nos oferece. Mas infelizmente, em alguns pontos, principalmente de relacionamento humano, os europeus, considerados tão frios, são muito mais humanos e tem uma consciência muito mais respeitosa em relação ao "outro" do que nós, que somos tão conhecidos por ser um povo receptivo. Essas constradições me incomodam bastante e acredito fortemente que se esse tipo de consciência atingisse nossa população, teríamos um grande desenvolvimento não só social, mas político e econômico também. Tenha certeza que turistas se assustarão com a mentalidade muitas vezes medieval dos brasileiros, quando visitarem o país nos eventos esportivos de 2014 e 2016.

Como disse, como gay não quero levantar bandeira. Assim como acho que como hétero o senhor também não deva fazer isso.
Mas se como cidadão o senhor levanta uma preocupação sua, como cidadão levanto uma minha.
Dialogando, acredito que um dia possamos chegar num nível aceitável de respeito no Brasil. E é essa minha tentativa aqui.

Sou somente um cara pretendendo ser feliz, rotulado gay e fazendo valer seu direito de cidadão de ser respeitado.

Obrigado.

Rafael Leick

Caso eu receba um retorno desse e-mail, atualizarei o post. Espero que essa conversa não acabe por aqui. Sinta-se livre para usar o espaço de comentários nessa postagem para dar continuidade à discussão do assunto.

4 comentários:

Matt... disse...

é ridiculo como a sociedade trata este assunto!

E é totalmente inaceitável e chega a ser ilegal
Todos tem um direito de escolha a qual cabe ao ser escolher o que quer!

Acho que hoje a homofibia é tratada de uma maneira ridicularizada e totalmente preconceituosa parece que é a pauta obrigatoria dos programas hoje o que vemos na tv é uma coisa que eles se sentem obrigados a falar mas demonstram total desprezo

efim concordo com você Rafa

Rafael Leick disse...

Infelizmente, Matt, a sociedade ainda demorará um tempo até isso se tornar algo mais comum.
Como eu disse no post, acho que é inevitável isso acontecer, mas infelizmente deve levar uns bons anos aí...
Valeu pelo comentário!

Dih disse...

Boa tarde Rafael,

Realmente, o seu e-mail enviado ao senhor foi muito satisfatório. As vezes penso em como seria um mundo onde as pessoas soubessem tudo o que aflige o ser humano e respeitassem o direito de cada um. É triste saber que existem pessoas, e com grande número, que possua tais pensamentos quanto desse rapaz que te enviou o e-mail. O pessoal acha que as crianças serão influenciadas ou se tornarão gays se descobrirem um pouco mais o nosso lado, porém eu te digo uma coisa: eu fui influenciado.
Fui influenciado a acreditar numa sociedade má. A história nos mostra isso com detalhes. Porém, fui influenciado por mim mesmo a fazer a minha parte para tentar mostrar minhas visões das coisas e aceitar ao próximo como ser humano com direitos, deveres, defeitos e qualidades.
Não acredito em influências, e sim em escolhas. Acredito na lei do livre-arbítrio e que cada um escolhe o que é o melhor ou pensa ser melhor. Tudo em nossa vida é baseado em escolhas e essas podem ser boas e ruins. Cabe a nós saber qual é qual.
Eu tinha duas opções, me relacionar com mulheres ou com homens. Acredito que eu tenha nascido homossexual e de fato eu também escolhi isso, pois muitos que nasceram homossexual escondem seus desejos e virtudes e escolhem viver com mulheres para mascarar seus sentimentos, tal como você disse em sua resposta.
De qualquer maneira, seu e-mail foi brilhante. Creio que deve ter feito o rapaz pensar em suas ações, mesmo que em pequena parte.
Um grande abraço.

Rafael Leick disse...

Olá, Dih! Obrigado pelo comentário! Veio enriquecer a discussão!

Acredito realmente que a única "escolha" é optar por 'exercer' ou não algo que é seu e que te fará feliz.

Obrigado mais uma vez!

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