Eu prefiro a verdade acima de tudo. Sempre! Mesmo que pra isso, eu tenha que cometer um sincericídio, nesse caso, matar algo pela sinceridade. Seja algo um sentimento, uma vontade, um desejo, uma relação, uma esperança... qualquer coisa.
Na minha visão, acima de tudo está o ser sincero. Mas concordo que falar a verdade mais profunda não é fácil. É por isso que procuro estar preparado para falá-la, preparado para aguentar a consequência que vem inevitavelmente, pro bem ou pro mal. Na hora de analisar como as pessoas encaram a sinceridade, a contagem dos pontos é modificada.
Dois casos que passaram pelos meus olhos nos últimos meses são opostos nesse tratamento.
O Caso A tinha uma relação pessoal muito forte com um outro alguém, era uma relação que gerava bons frutos, mas é uma relação que pouco depois do meio do caminho se contaminou. Uma ação sempre gera uma reação. Mas o Caso A teve a ação omitida, para evitar a reação. Omissão é falta de verdade, o que acaba, em alguns casos, se assemelhando à mentira. Um ano depois o tempo se encarregou (irônico e como sempre) de trazer a ação à tona, gerando como reação a quebra de toda essa relação previamente sólida. E quando a rachadura vem da sinceridade, da verdade, da essência, ela pode ser remendada, repensada, mas estará sempre lá presente. Um ano do caminho teria se baseado em uma falta de verdade, seguida de uma mentira direta e da falta de justificativas. Esse caminho, em essência pura, não existiu. Algo que se pensava sólido virou poeira e foi varrido pelo vento.
O Caso B tinha um ar mais efêmero. Começou de repente, inusitadamente, totalmente inesperadamente! Mas começou a cavar seu espaço. De cara, turbulências balançaram o avião antes dele se estabilizar, mas ainda assim, adaptação está sempre no nosso caminho. Dúvidas, receios e simplicidade foram aos poucos se diluindo. Quando as coisas pareciam caminhar pra um mar de rosas, veio o conceito, que não chegou nem ao ponto de ação, logo seguida do balde de água fria chamado sinceridade. Mas ainda assim, era um balde de água fria verdadeiro. E eu sempre penso que a verdade vem pro bem. A água gelada talvez tenha transformado essa névoa prévia em algo um pouco mais parecido com solidez.
Os casos apresentados acima tiveram pontos de partida e chegada bem diferentes. Enquanto um 'tudo' se desmoronou, um 'em processo' se tornou algo mais palpável para o futuro. De nada adianta pra mim todos os entornos sem a sinceridade, talvez um dia só reste ela, os entornos podem todos cair, mas a verdade vai estar sempre estampada aos olhos. E eu de fato considero isso. Nos dois casos, a relação citada (seja ela familiar, fraternal, amorosa, profissional... cada um tem a sua interpretação dos casos) teve o mesmo resultado final, mas o caminho traçado até ele demonstra pra mim a integridade dos indivíduos envolvidos em relação à sinceridade. E se há esse tipo de compromisso, porque outros não poderiam voltar a ser assumidos no futuro? Agora, se isso é algo que falta, um dos pilares de qualquer firmamento futuro está trincado.
Porque o ser humano tem tanta dificuldade em falar a verdade dos fatos? Disso tudo, um só dizer:
"Desculpa minha incapacidade, mas nesse caso, eu não consigo. Todavia, eu agradeço pela confiança, ela é mútua e não foi quebrada."
23 de novembro de 2010
25 de outubro de 2010
Um babaca convicto

Acabei de chegar do cinema, fui assistir ao filme Tropa de Elite 2. O filme é muito bem feito e não deixa de incorporar o clichê "tapa na cara da sociedade". Ele mostra, de maneira muito explícita, o que o povo brasileiro procura manter os olhos fechados para não ver. (leia matéria sobre a repercurssão do filme)
Saí da sala de cinema com mais fé no cinema nacional e com mais nojo da nossa política e da nossa corrupção que tem berço no tão aclamado jeitinho brasileiro.
A propósito, eu odeio o "jeitinho brasileiro"! E sem discursos moralistas sobre a valorização da cultura e personalidade nacional pra cima de mim. Isso pra mim é desculpa de malandro. É discurso pra quem gosta de levar vantagem em tudo sobre qualquer coisa, a qualquer preço. E pra mim as coisas não funcionam dessa maneira.
Eu já fui um entusiasta desse jargão nacional e defendia que nós, brasileiros, tínhamos uma personalidade nacional flexível, se adaptando a todas as dificuldades, fazendo milagres com a miséria que nos é concedida sob a capa de pão e circo. E ainda acreditaria nessa adaptabilidade do jargão, se ela fosse real. Quando morei fora, tive contato e experiência com alguns brasileiros. E estando fora da nossa terra, estando longe desse ambiente e respirando ares de uma outra cultura, totalmente diferente da nossa, pude perceber o quão falha é essa desculpa.
O "jeitinho brasileiro", sem tradução clara o suficiente para nossos irmãos gringos, nada mais é do que um cobertor. Ele não deixa de incluir a flexibilidade e adaptabilidade. Mas os fins a que essas características se destinam geralmente não apresentam razões tão nobres. A ideia, crua, é sim levar vantagem em qualquer situação. Quem nunca tentou furar fila no cinema? Quem nunca fingiu estar dormindo quando uma senhora entrou no ônibus ou no vagão do metrô em que você estava sentado (mesmo que fosse no assento preferencial)? Quem nunca recebeu um troco errado na padaria e além de se gabar, ainda chamou o caixa de "trouxa" por não perceber que deu dinheiro a mais?
Se você conseguiu responder "eu" à maioria dessas perguntas, fico contente que você seja mais um no caminho certo, dentro do que eu acredito que seja o caminho certo. Não espero que você tenha 100% de "eus" nas suas respostas, porque todos já passamos por pelo menos uma situação assim. E aprendemos assim com nossos pais, que aprenderam com nossos avôs e assim por diante. Você pode discordar de mim, dizer que você não se inclui nesse grupo, mas se você conseguir dizer a verdade pra você mesmo sobre essas questões, esse texto cumpre seu papel.
Há sim a possibilidade de se fazer as coisas funcionarem sem querer levar vantagem em tudo. É só respeitar o próximo como gostaria de ser respeitado. Se em vez de falsificar uma carteira de estudante pra pagar meia entrada em shows, cinema, teatro e outras atividades culturais, o povo se unisse e levantasse bandeira para cobrar de nossos governantes um incentivo maior à cultura e um investimento em boas estruturas públicas, talvez não precisaríamos dessa falsificação. Provavelmente, o preço do ingresso seria menor, por meios legais.
A legalidade geralmente demora mais, é mais burocrática. E queremos sempre o agora, o imediato. Flando em termos mais técniso, percebo isso em meus alunos, por exemplo, no ensino de um código CSS perante uma construção de site em tabelas. O código CSS demanda um planejamento um pouco maior, uma construção visual um pouco mais cuidada, mas ele demanda um investimento inicial de tempo maior. Então, todos preferem "dar um jeitinho" com a construção em tabela. Ela resolve os problemas de forma mais rápida, sem que você precisse se preocupar tanto assim com a estrutura na construção. Mas no final das contas, quando precisamos procurar algum erro num código em tabelas, a sujeira e a quantidade de gambiarras é tão grande que sinto o mesmo asco de quando olho pro nosso corrompido e imundo sistema político atual.
O exemplo que usei pode ser técnico, mas a essência é bem humana. E, com o perdão da palavra, está na merda do jeitinho brasileiro. Ser honesto no Brasil é ser babaca! Posso ainda não estar lá, mas minha luta por ser um babaca convicto no Brasil continua.
30 de agosto de 2010
Contando os paradoxos
Recebi essa semana de um amigo esse texto que tem muito a ver com o que penso e faz parte de muitas das minhas recentes reflexões.
O texto, chamado "O Paradoxo do Nosso Tempo", de autoria de George Carlin, é um clichê que vale a pena ser lembrado.
"Nós bebemos demais, fumamos demais, gastamos sem critérios, dirigimos rápido demais, ficamos acordados até muito mais tarde, acordamos muito cansados, lemos muito pouco, assistimos TV demais e rezamos raramente.
Multiplicamos nossos bens, mas reduzimos nossos valores. Nós falamos demais, amamos raramente, odiamos freqüentemente. Aprendemos a sobreviver, mas não a viver; adicionamos anos à nossa vida e não vida aos nossos anos.
Fomos e voltamos à Lua, mas temos dificuldade em cruzar a rua e encontrar um novo vizinho. Conquistamos o espaço, mas não o nosso próprio.
Fizemos muitas coisas maiores, mas pouquíssimas melhores.
Limpamos o ar, mas poluímos a alma; dominamos o átomo, mas não nosso preconceito; escrevemos mais, mas aprendemos menos; planejamos mais, mas realizamos menos.
Aprendemos a nos apressar e não, a esperar.
Construímos mais computadores para armazenar mais informação, produzir mais cópias do que nunca, mas nos comunicamos menos.
Estamos na era do 'fast-food' e da digestão lenta; do homem grande de caráter pequeno; lucros acentuados e relações vazias.
Essa é a era de dois empregos, vários divórcios, casas chiques e lares despedaçados.
Essa é a era das viagens rápidas, fraldas e moral descartáveis, das rapidinhas, dos cérebros ocos e das pílulas "mágicas".
Um momento de muita coisa na vitrine e muito pouco na dispensa.
Uma era que leva essa carta a você, e uma era que te permite dividir essa reflexão ou simplesmente clicar 'delete'.
Lembre-se de passar tempo com as pessoas que ama, pois elas não estarão por aqui para sempre. Por isso, valorize o que você tem e as pessoas que estão ao seu lado".
O texto, chamado "O Paradoxo do Nosso Tempo", de autoria de George Carlin, é um clichê que vale a pena ser lembrado.
23 de agosto de 2010
Personalidade do Tempo
"A dor que fere o peito... Isso vai passar."
O Tempo, tão sábio e provocante. Não diria traiçoeiro, pois ele é muitas vezes até lógico, mas ele adora uma brincadeira, pregar peças que nos pegam tão de surpresa. E por mais que você se blinde contra alguns fatores específicos, o Tempo se encarrega de achar a brecha necessária pra te fazer passar pelo sentimento que você vislumbrou e tentou se esquivar com tanto sucesso por certo Tempo. Mas o Tempo não se engana, com seu passar, ele esclarece, mostra... Muitas vezes, lentamente, outras de modo instantâneo. Mas ele é implacável quanto ao futuro certo; demorando mais ou menos, dependendo do caso.
E ele não deixa de ser irônico e sacana pois coloca as coisas na frente dos seus olhos quando você se sentia seguro o suficiente para não olhar mais para aquilo. E muitas vezes em um momento que você não poderia ter mais nada em sua frente por ter um outro foco, bem definido e que demanda energias concentradas.
O Tempo é assim... Cabe a gente aceitar, gostando ou não.
O Tempo, tão sábio e provocante. Não diria traiçoeiro, pois ele é muitas vezes até lógico, mas ele adora uma brincadeira, pregar peças que nos pegam tão de surpresa. E por mais que você se blinde contra alguns fatores específicos, o Tempo se encarrega de achar a brecha necessária pra te fazer passar pelo sentimento que você vislumbrou e tentou se esquivar com tanto sucesso por certo Tempo. Mas o Tempo não se engana, com seu passar, ele esclarece, mostra... Muitas vezes, lentamente, outras de modo instantâneo. Mas ele é implacável quanto ao futuro certo; demorando mais ou menos, dependendo do caso.
E ele não deixa de ser irônico e sacana pois coloca as coisas na frente dos seus olhos quando você se sentia seguro o suficiente para não olhar mais para aquilo. E muitas vezes em um momento que você não poderia ter mais nada em sua frente por ter um outro foco, bem definido e que demanda energias concentradas.
O Tempo é assim... Cabe a gente aceitar, gostando ou não.
20 de julho de 2010
Here and There (Aqui e Lá)
Do you know what happens? Neither do I! The mind at these times is a whirl and sends disordered signals to the heart to beat faster, to the sleep to remain absent, to the basic functions of the body to be disarranged, to the lips to start to be bitten on the inside and the nails to become smaller and irregular.
The body tires, not the mind. Many things arrive at the magnetic field of this powerful tool that changes the course of the things and makes it so tattered that I can look the backlog that I continuously do and redo and notice I didn’t leave the place. Place, moreover, is the problem… and solution at the same time. It’s that time when the Libran scale flips out.
There is where I always felt confident, sometimes overconfident, owner of myself. My job wasn't the dream's, but I strove to do it the best. From this, came good results and compliments. There is a space where I had domination of my territory, and I always fight intensely for it. There is the place where my friends were always ready to have fun together and also to have hour-long conversations filled with advice and outflowings, or about the banalities of public transport or that TV show.
There is where life is easier, where I’ve all the elements that protect me, care about me, look out for me, surround me.
Here, on the other hand, is where the things happen. I don’t talk just about the hype of the new gadget or about the concert of the moment; here the things happen when you’re ill, need to move around the city or even make the supermarket purchases of the month. They happen on a daily basis. Here life is more difficult, more challenging and also makes a fantastic and dynamic place, that consequently moves you along with the river current.
Here, nobody cares if you go out on the street in flip-flops, floral shirt, top hat and filibeg. Maybe they think I’m eccentric, but they’ll hardly lose more than 5 seconds of their busy lives with me. Here they don’t care if I’m young or old, man or woman, gay or straight, Brazilian or Polish. Here you have to show it belongs, without carrying the prerequisite social tags and labels that the majority don't put on you. Here is a multicultural cauldron with buzzing differences around common interests, that makes more viable the acceptance of the other, who doesn't have, in general, a routine very different from yours. Even though he earns your triple, he knows that the easiest way to reach his workplace is by tube. There it is also known, but is better to cover the eyes, give a smile and move on.
There they smile a lot, here not so much. There they also fake a smile a lot, here not so much. There they’ve sympathy, here respect. There they’ve hypocrisy, here a possible loneliness. There they’ve the idea that what comes from here is the best. Here the domestic product is valued and yet the outer one, respected. There, the idea is to multiply, here is to share. There you do have the best treatment in the world, here you’ve the world on your treatment.
There and here are opposites. And twins. There are differences that weight and search for a balance inside the ones who pass between both locations. This is what happens with me and brings me the whirl.
Here the glass windows on the offices let everybody follow other’s routine. But, to be honest, nobody cares that much about the work routine of a stranger. Strange one that consequently has exposed his life, but has at the same time more freedom than he would have there. And he hides himself more efficiently that he could there.
The people from there that are here brings a bit of the taste of home, but this reminds me too that they have a knack for everything and always, it can disturb these good memories and remember that being wherever they are, have in their nature the trial to take advantage of everything, even if it means cheating on the person that lives with them. And this is sad, here or there.
On the other hand, the people there have natural swing, that the people from here try hard to imitate and can’t do at first, sounds artificial. The people there have this swing also regarding music, this music that is often less logical and technical than here, but that is contaminated here, that just repeats meaningless phrases they listen, as well as there’s ones repeats, most idolised, the songs from here, returning to the paradox value and respect.
But both here and there some similarities take shape in light of the passage of time. The bath, for example, anywhere, is my deepest, more intense, logical and practical thinking. It’s a pity I can’t verbalise as well as thinking in the bath.
Either there or here, bureaucracy, high taxes and corrup politicians exist. The difference is that here the results of the taxes are returned to the population, the bureaucracy serve as efficient register most of the time and corruption must be uncovered publicly in a satisfactory way.
There, the appearance counts a lot. Beyond the physical and personal, the house must be beautiful and imposing so that the others will have a good impression of your job, which must bring status, even if only in the nomenclature of the post that carries the badge. The clothes have to be stunning, even if they’re uncomfortable.
Here the functionality of the things matters more, being simpler. The houses are virtually all the same, mainly externally they’re twins among them. The job must reward each one’s necessities, independent if its function is waiter, receptionist, manager, marketing researcher, representative or company’s owner. And knowing that, everybody respects the others, without looking down on them.
But now, there is here and here is there. Everything changed… again. But many things didn’t change. Others are completely different. The adaptation between the “here” and the “there” seems much more difficult now then when the direction was from here to there, even though it brought uncertainties (and maybe exactly because of that it seemed easier). Here’s family can’t and won’t understand how painful it was to leave there. There’s family can understand a part of it, to live a similar situation in the change of here and there. Only the family of transition, the one which walked here and there, the other piece of middle part, is the one who knows that beyond all of it, the plural, in terms, turn to be singular. But knows too that there’s a mark this process left on us and that will keep an eternal link.
Between singular and plural. Between here and there.
[From the original, in Portuguese: Aqui e Lá. Thanks to Louise Latham for the language correction!]
2 de julho de 2010
Viva Dunga, abaixo o "dunguismo"
Mais um texto recebido da Ju Lázaro, bem oportuno sobre a saída do Brasil da Copa do Mundo na África do Sul hoje, ao perder de 2x1 para a Holanda.
E esse texto, em sua maioria, define o que penso. Dunga pode ter errado na convocação, mas o time se desintegrou no último jogo sem explicação plausível e racional. E crucificar o cara como o culpado é se cegar diante dos outros erros. É querer concentrar vários erros em uma pessoa só. Não sou expert em futebol, por isso não me atreveria a escrever um post só com palavras minhas sobre o assunto. Mas o que me incomoda é a postura das pessoas perante o fato. E são pessoas que cantam "Eu sou brasileiro com muito orgulho, com muito amor" durante a Copa e o resto do ano só reclamam do Brasil e acham que todo mundo é melhor que a gente.
Quem deveria ser eliminada é a hipocrisia.
Segura o orgulho, cria vergonha na cara, abre o olho.
Viva Dunga, abaixo o "dunguismo"
Lá vou eu com a antiga mania de desafiar a chamada sabedoria convencional, que, pelo que vi nos canais de TV após o jogo contra a Holanda, está crucificando Dunga.
Eu vou defender Dunga. A eliminação não é culpa dele, por mais que você precise de um Judas a quem malhar na derrota.
Dunga levou para a Copa o que tinha à mão. Não me venha com Ronaldinho Gaúcho, pelo amor de Deus. Esse rapaz, no auge de sua forma na Copa de 2006, foi um tremendo fiasco. Agora que está no tobogã para baixo, você queria levá-lo para repetir o fracasso?
Já Ganso e Neymar, eu levaria, sim. São atrevidos e ousados, características ideais para jogadores de futebol (e para outras profissões também, mas não são elas que estão na berlinda hoje).
Como Dunga não é nem atrevido nem ousado, deve ter achado que convocá-los seria uma aventura. Seria mesmo. Tanto que os dois não estão jogando no campeonato nacional o que jogaram no paulista. Se Robinho, igualmente atrevido, igualmente ousado e igualmente brilhante no campeonato paulista, foi o fiasco que foi na África do Sul (e não só no jogo contra a Holanda), quem garante que seus jovens companheiros fariam diferente?
Sobrou algum talento mais, espalhado pelo mundo, que Dunga não tenha convocado? Não vejo nem ouvi meus ídolos no colunismo esportivo (PVC, Juca, Tostão, José Geraldo Couto, Fernando Calazans) mencionarem algum com entusiasmo ou até sem ele.
Dunga, portanto, levou o que o Brasil tem hoje para mostrar na passarela do futebol. Que culpa ele tem se os dois maiores talentos da atualidade --Kaká e Robinho-- fracassaram?
Que culpa ele tem se os três jogadores que toda a crônica esportiva transformou em monstros sagrados --Júlio César, Juan e Lúcio-- falharam miseravelmente nos gols da Holanda? O goleiro saiu do gol estabanadamente no primeiro gol; os zagueiros deixaram um baixinho de 1m70, Sneijder, cabecear no segundo gol, sem precisar nem sequer erguer o pescoço, quanto mais pular, porque os beques que deveriam marcá-lo estava caçando mosca.
A seleção não podia ser salva por Dunga, mas por Freud, se vivo estivesse e gostasse de futebol. Só ele para explicar como é que 11 jogadores que atuaram tão bem no primeiro tempo conseguem perder totalmente o rumo apenas porque o time adversário fez o gol de empate, na primeira jogada de perigo que conseguiu criar até então.
É por isso que o título da "Janela" termina com "abaixo o dunguismo". O problema de Dunga não é com a pessoa jurídica (o treinador), é com a pessoa física. Dunga é triste, é chato, é resmungão, deveria chamar-se Zangado, se é para ficar em nome de anões. Futebol, ao contrário, é alegria, é molecagem, exige que não se perca a alegria jamais, mesmo quando é preciso endurecer (se o Ché me permite parafraseá-lo).
É por isso que a seleção de 2010 perde e pede para ser deletada da memória, ao contrário da de 1982, que também perdeu.
Texto de: Clóvis Rossi que é repórter especial e membro do Conselho Editorial da Folha, ganhador dos prêmios Maria Moors Cabot (EUA) e da Fundación por un Nuevo Periodismo Iberoamericano. Assina coluna às quintas e domingos na página 2 da Folha e, aos sábados, no caderno Mundo. É autor, entre outras obras, de "Enviado Especial: 25 Anos ao Redor do Mundo e "O Que é Jornalismo".
E esse texto, em sua maioria, define o que penso. Dunga pode ter errado na convocação, mas o time se desintegrou no último jogo sem explicação plausível e racional. E crucificar o cara como o culpado é se cegar diante dos outros erros. É querer concentrar vários erros em uma pessoa só. Não sou expert em futebol, por isso não me atreveria a escrever um post só com palavras minhas sobre o assunto. Mas o que me incomoda é a postura das pessoas perante o fato. E são pessoas que cantam "Eu sou brasileiro com muito orgulho, com muito amor" durante a Copa e o resto do ano só reclamam do Brasil e acham que todo mundo é melhor que a gente.
Quem deveria ser eliminada é a hipocrisia.
Segura o orgulho, cria vergonha na cara, abre o olho.
21 de junho de 2010
Aqui e Lá
Sabe o que acontece? Nem eu! A cabeça nessas horas é turbilhão e manda sinais desordenados para o coração bater mais rápido, para o sono se manter mais ausente, para as funções básicas do organismo se desregularem, para os lábios começarem a ser mordidos por dentro e as unhas ficarem menores e irregulares. O corpo cansa, a mente não. Muita coisa chega ao campo magnético dessa ferramenta poderosa que altera o curso das coisas e a faz ficar tão estafada que eu posso olhar para aquela lista de coisas pendentes que eu continuamente faço e refaço e perceber que não saí do lugar. Lugar, aliás, é que está sendo o problema... e solução ao mesmo tempo. É a hora que a balança libriana entra em parafuso.
Lá é o lugar que sempre me senti seguro, às vezes muito seguro, dono de mim. Meu trabalho não era dos sonhos, mas eu me empenhava para fazer dele o melhor. Disso saíam bons resultados e elogios. Lá é um espaço onde eu tinha domínio do meu território, e sempre briguei intensamente por ele. Lá é o lugar onde os amigos estavam sempre prontos pra gente se divertir junto e também para conversas de horas cheias de conselhos e desabafos, ou ainda sobre as banalidades do transporte público ou daquele programa de TV. Lá é o lugar onde a vida é mais fácil, onde tenho todos os elementos que me protegem, me cuidam, me olham, me cercam.
Aqui, por outro lado, é o lugar onde as coisas acontecem. Não falo só da badalação do novo gadget ou do show do momento; aqui as coisas acontecem quando você fica doente, precisa se locomover ou mesmo fazer as compras do mês. Acontecem no dia-a-dia. Aqui a vida é mais difícil, mais desafiadora e isso também faz daqui um lugar fantástico e dinâmico, que conseqüentemente te move junto com a correnteza do rio.
Aqui ninguém liga se eu sair na rua de chinelo, camisa floral, cartola e saia escocesa. Talvez me achem excêntrico, mas dificilmente perderão mais de 5 segundos de suas vidas ocupadas comigo. Aqui não ligam se eu sou novo ou velho, homem ou mulher, gay ou hétero, brasileiro ou polonês. Aqui você tem que mostrar a que veio, sem carregar como pré-requisito as etiquetas e rótulos sociais que a maioria não faz questão nenhuma de te colocar. Aqui é um caldeirão multicultural que fervilha diferenças em torno de interesses comuns, o que torna mais viável a aceitação do outro, que não tem, num geral, uma rotina muito diferente da sua. Mesmo que ganhe o triplo, ele sabe que o jeito mais fácil de chegar ao trabalho é de metrô. Lá também se sabe, mas é melhor cobrir os olhos, dar um sorriso e seguir em frente.
Lá se sorri muito, aqui não tanto. Lá também se sorri muito de mentira, aqui não tanto. Lá se tem simpatia, aqui se tem respeito. Lá rola hipocrisia, aqui uma possível solidão. Lá se tem a idéia de que o que sai daqui é o melhor. Aqui o produto interno é valorizado e ainda assim o externo, respeitado. Lá a idéia é multiplicar, aqui dividir. Lá você tem o melhor atendimento do mundo, aqui o mundo no seu atendimento.
Lá e aqui são opostos. E gêmeos. Tem diferenças que pesam e procuram o equilíbrio dentro de quem transita entre as duas localidades. É o que acontece comigo. É o que me traz o turbilhão.
Aqui as janelas de vidro nos escritórios deixam todo mundo acompanhar a rotina do outro. Mas, pra ser sincero, ninguém se importa tanto assim com a rotina trabalhista de um estranho. Estranho esse que por conseqüência tem a sua vida exposta, mas ao mesmo tempo mais liberdade do que teria por lá. E ele se esconde mais eficientemente do que seria se fosse lá.
O povo de lá que está aqui traz um pouco do gostinho bom de casa, mas me faz lembrar também que eles têm um “jeitinho” pra tudo e sempre, que pode atrapalhar essas memórias boas e lembrar que estando onde estiver, têm em sua natureza o “tentar levar vantagem em tudo”, mesmo que pra isso tenha que passar por cima ou trapacear o outro que mora com eles. E isso é triste, aqui ou lá.
Em contrapartida, o povo de lá tem ginga natural, que o povo daqui se esforça pra imitar e não consegue de primeira, soa artificial. O povo de lá também tem música com essa ginga, uma música muitas vezes menos lógica e técnica do que aqui, mas que contagia os de cá, que só repetem as frases sem sentido que ouvem, assim como o povo de lá repete, com mais idolatria, as músicas daqui, voltando ao paradoxo valor e respeito.
Mas tanto aqui como lá algumas similaridades tomam corpo à luz do passar do tempo. O banho, por exemplo, seja onde for, é o meu pensar mais profundo, intenso, lógico e prático. É uma pena que não consiga verbalizar tão bem quanto pensar no banho. Tanto lá como aqui há burocracia, impostos altos e políticos corruptos. A diferença é que aqui os resultados dos impostos são retornados para a população, a burocracia serve de registro eficiente na maioria das vezes e a corrupção deve ser retratada publicamente de maneira satisfatória.
Lá, a aparência conta muito. Além da física e pessoal, a casa deve ser bonita e imponente para que os outros tenham uma boa impressão do seu trabalho, que deve trazer status, nem que seja só na nomenclatura do cargo que se carrega no crachá. As roupas tem que nos deixam deslumbrantes, mesmo que sejam desconfortáveis. Aqui importa mais a funcionalidade das coisas, sendo elas, portanto, mais simples. As casas são praticamente todas iguais, principalmente externamente são gêmeas uma das outras. O trabalho tem que recompensar as necessidades de cada um, independente se sua função é garçom, recepcionista, gerente, pesquisador de marketing, representante ou dono da empresa. E todo mundo sabendo disso, respeita o outro, sem olhar de superioridade.
Mas agora lá é aqui e aqui é lá. Tudo mudou... de novo. Mas muita coisa não mudou. Outras são completamente diferentes. A adaptação entre o aqui e lá parece muito mais difícil agora do que quando a direção era daqui pra lá, mesmo que trouxesse incertezas (e talvez exatamente por isso parecesse mais fácil). A família daqui não consegue e não vai conseguir entender quão doloroso foi deixar lá. A família de lá consegue entender uma parte disso, por viver situação similar na troca do aqui e do lá. Só a família de trânsito, a que caminhou aqui e lá, a outra peça no meio termo, é que sabe que além de tudo isso, o plural vira, em termos, singular. Mas sabe também que há uma marca que esse processo deixou e que vai manter uma ligação eterna.
Entre singular e plural. Entre aqui e lá.
Lá é o lugar que sempre me senti seguro, às vezes muito seguro, dono de mim. Meu trabalho não era dos sonhos, mas eu me empenhava para fazer dele o melhor. Disso saíam bons resultados e elogios. Lá é um espaço onde eu tinha domínio do meu território, e sempre briguei intensamente por ele. Lá é o lugar onde os amigos estavam sempre prontos pra gente se divertir junto e também para conversas de horas cheias de conselhos e desabafos, ou ainda sobre as banalidades do transporte público ou daquele programa de TV. Lá é o lugar onde a vida é mais fácil, onde tenho todos os elementos que me protegem, me cuidam, me olham, me cercam.
Aqui, por outro lado, é o lugar onde as coisas acontecem. Não falo só da badalação do novo gadget ou do show do momento; aqui as coisas acontecem quando você fica doente, precisa se locomover ou mesmo fazer as compras do mês. Acontecem no dia-a-dia. Aqui a vida é mais difícil, mais desafiadora e isso também faz daqui um lugar fantástico e dinâmico, que conseqüentemente te move junto com a correnteza do rio.
Aqui ninguém liga se eu sair na rua de chinelo, camisa floral, cartola e saia escocesa. Talvez me achem excêntrico, mas dificilmente perderão mais de 5 segundos de suas vidas ocupadas comigo. Aqui não ligam se eu sou novo ou velho, homem ou mulher, gay ou hétero, brasileiro ou polonês. Aqui você tem que mostrar a que veio, sem carregar como pré-requisito as etiquetas e rótulos sociais que a maioria não faz questão nenhuma de te colocar. Aqui é um caldeirão multicultural que fervilha diferenças em torno de interesses comuns, o que torna mais viável a aceitação do outro, que não tem, num geral, uma rotina muito diferente da sua. Mesmo que ganhe o triplo, ele sabe que o jeito mais fácil de chegar ao trabalho é de metrô. Lá também se sabe, mas é melhor cobrir os olhos, dar um sorriso e seguir em frente.
Lá se sorri muito, aqui não tanto. Lá também se sorri muito de mentira, aqui não tanto. Lá se tem simpatia, aqui se tem respeito. Lá rola hipocrisia, aqui uma possível solidão. Lá se tem a idéia de que o que sai daqui é o melhor. Aqui o produto interno é valorizado e ainda assim o externo, respeitado. Lá a idéia é multiplicar, aqui dividir. Lá você tem o melhor atendimento do mundo, aqui o mundo no seu atendimento.
Lá e aqui são opostos. E gêmeos. Tem diferenças que pesam e procuram o equilíbrio dentro de quem transita entre as duas localidades. É o que acontece comigo. É o que me traz o turbilhão.
Aqui as janelas de vidro nos escritórios deixam todo mundo acompanhar a rotina do outro. Mas, pra ser sincero, ninguém se importa tanto assim com a rotina trabalhista de um estranho. Estranho esse que por conseqüência tem a sua vida exposta, mas ao mesmo tempo mais liberdade do que teria por lá. E ele se esconde mais eficientemente do que seria se fosse lá.
O povo de lá que está aqui traz um pouco do gostinho bom de casa, mas me faz lembrar também que eles têm um “jeitinho” pra tudo e sempre, que pode atrapalhar essas memórias boas e lembrar que estando onde estiver, têm em sua natureza o “tentar levar vantagem em tudo”, mesmo que pra isso tenha que passar por cima ou trapacear o outro que mora com eles. E isso é triste, aqui ou lá.
Em contrapartida, o povo de lá tem ginga natural, que o povo daqui se esforça pra imitar e não consegue de primeira, soa artificial. O povo de lá também tem música com essa ginga, uma música muitas vezes menos lógica e técnica do que aqui, mas que contagia os de cá, que só repetem as frases sem sentido que ouvem, assim como o povo de lá repete, com mais idolatria, as músicas daqui, voltando ao paradoxo valor e respeito.
Mas tanto aqui como lá algumas similaridades tomam corpo à luz do passar do tempo. O banho, por exemplo, seja onde for, é o meu pensar mais profundo, intenso, lógico e prático. É uma pena que não consiga verbalizar tão bem quanto pensar no banho. Tanto lá como aqui há burocracia, impostos altos e políticos corruptos. A diferença é que aqui os resultados dos impostos são retornados para a população, a burocracia serve de registro eficiente na maioria das vezes e a corrupção deve ser retratada publicamente de maneira satisfatória.
Lá, a aparência conta muito. Além da física e pessoal, a casa deve ser bonita e imponente para que os outros tenham uma boa impressão do seu trabalho, que deve trazer status, nem que seja só na nomenclatura do cargo que se carrega no crachá. As roupas tem que nos deixam deslumbrantes, mesmo que sejam desconfortáveis. Aqui importa mais a funcionalidade das coisas, sendo elas, portanto, mais simples. As casas são praticamente todas iguais, principalmente externamente são gêmeas uma das outras. O trabalho tem que recompensar as necessidades de cada um, independente se sua função é garçom, recepcionista, gerente, pesquisador de marketing, representante ou dono da empresa. E todo mundo sabendo disso, respeita o outro, sem olhar de superioridade.
Mas agora lá é aqui e aqui é lá. Tudo mudou... de novo. Mas muita coisa não mudou. Outras são completamente diferentes. A adaptação entre o aqui e lá parece muito mais difícil agora do que quando a direção era daqui pra lá, mesmo que trouxesse incertezas (e talvez exatamente por isso parecesse mais fácil). A família daqui não consegue e não vai conseguir entender quão doloroso foi deixar lá. A família de lá consegue entender uma parte disso, por viver situação similar na troca do aqui e do lá. Só a família de trânsito, a que caminhou aqui e lá, a outra peça no meio termo, é que sabe que além de tudo isso, o plural vira, em termos, singular. Mas sabe também que há uma marca que esse processo deixou e que vai manter uma ligação eterna.
Entre singular e plural. Entre aqui e lá.
Assinar:
Postagens (Atom)
Pesquisar este blog
Arquivo do blog
-
▼
2013
(7)
- ► abril 2013 (1)
- ► março 2013 (2)
- ► janeiro 2013 (2)
-
►
2012
(8)
- ► dezembro 2012 (2)
- ► novembro 2012 (1)
- ► abril 2012 (2)
- ► janeiro 2012 (3)
-
►
2011
(18)
- ► dezembro 2011 (2)
- ► novembro 2011 (2)
- ► setembro 2011 (2)
- ► agosto 2011 (1)
- ► junho 2011 (2)
- ► abril 2011 (1)
- ► março 2011 (1)
- ► fevereiro 2011 (3)
- ► janeiro 2011 (1)
-
►
2010
(15)
- ► dezembro 2010 (2)
- ► novembro 2010 (2)
- ► outubro 2010 (1)
- ► agosto 2010 (2)
- ► julho 2010 (2)
- ► junho 2010 (1)
- ► abril 2010 (2)
- ► fevereiro 2010 (1)
- ► janeiro 2010 (1)
-
►
2009
(43)
- ► dezembro 2009 (1)
- ► novembro 2009 (3)
- ► outubro 2009 (2)
- ► setembro 2009 (5)
- ► agosto 2009 (9)
- ► julho 2009 (13)
- ► junho 2009 (4)
Twitter Updates
Tags
- animais (3)
- arte (10)
- balada (2)
- campanhas (8)
- canadá (1)
- celebridades (8)
- cidadania (18)
- cinema (7)
- comida (1)
- consumidor (6)
- crítica (18)
- css (3)
- design (5)
- dica (11)
- dreamweaver (1)
- e-mail (26)
- entrelinhas (9)
- esporte (2)
- filosofando (25)
- fotografia (5)
- games (1)
- hardware (1)
- layout (4)
- literatura (3)
- londres (7)
- música (12)
- natureza (5)
- notícias (6)
- photoshop (3)
- piada (12)
- poesia (2)
- política (5)
- promoção (1)
- publicidade (8)
- redes sociais (6)
- religião e espiritualidade (5)
- rio de janeiro (3)
- são paulo (15)
- saúde (5)
- show (5)
- sociedade (18)
- tecnologia (13)
- televisão (6)
- texto (22)
- trabalho (4)
- transporte (3)
- viagem (2)
- web (14)
